Caixa de contos

Entre você e o chão {Caixa de contos}

Pular

Você tentou me puxar, mas eu já tinha pulado. O que eu tinha para fazer aqui já estava certo e não tinha nada mais que você pudesse fazer – ou dizer- para me impedir. Sentir a tua pele encostar na minha não era mais uma opção. E todos os dias que passamos juntos não fazia parte de mim – pelo menos eu não queria que fizessem mais parte de mim.

Caí sentindo a pressão do ar contra todo o meu corpo. Nunca senti um medo tão gritante, nunca senti uma calmaria tão libertadora. A ideia de chegar ao fim de tudo o que vinha acontecendo por todos esses anos era a única coisa boa que podia acontecer.

Você ficou me olhando de lá de cima e cada vez mais via meu rosto perder as feições que você tanto conhecia. Eu já não conseguia ver suas feições que tanto conhecia mesmo quando ficava parada em frente a você. Na verdade, não enxergava mais nada.

Comecei a sentir o calor do solo e o ar não tinha mais nenhuma pressão sobre mim. Olhei para cima e só consegui distinguir o que era o céu e o que era o sol. Deixei tudo para trás em um dia ensolarado, daqueles em que o azul é infinito e o branco só aparece para dar uma pincelada.

Em menos de 20 segundos vi a minha vida inteira sobre os meus olhos, tudo o que fiz e tudo que deixei de fazer. Lembrei que deixei a cama para você arrumar hoje de manhã. Lembrei de você! Lembrei de cada detalhe teu e tive vontade de voltar. Retornar. Voltar para aquele 05 de novembro e para a pessoa que mais me conhecia, mais me entendia, mais me entendeu.

Você virou o rosto quando eu estava prestes a chegar ao chão. O pensamento em você foi a última coisa que ficou grudado na minha cabeça quando, de súbito, a corda me puxou de volta para cima. No balançar contra o vento me desfiz de toda a mágoa que um dia me habitara. Abri um sorriso aliviador de quem deixou tudo jogado no solo rochoso. Eu retornei para você e pela primeira vez em muito tempo nos enxergamos como somos realmente. Simples, verdadeiro.

Nunca amei tanto o chão. Nunca amei tanto o ar. Nunca amei tanto te reencontrar. Nunca amei tanto me reencontrar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s