Caixa de contos

Casa cheia, quarto vazio {Caixa de contos}

Renato Russo
Foto: Reprodução

Ele soltou um grito de solidão em meio à multidão que gritava seu nome. Cartas, rostos, máscaras pairavam sobre o chão exageradamente iluminado. Não sabia por que se sentia assim, sempre vagando nas linhas entre o talento e o descontentamento, o palco e o quarto escuro.

Em meio a milhares de pessoas ele buscava com o olhar pequeno um rosto meramente conhecido, um rosto amigo, algo além do que se pode ver. Era imensamente admirado, mas algo de admiração em si mesmo ele não conseguia ver.

Guitarras, contrabaixos, microfone, violão. Para que serve tudo isto se me falta o que me dê simples e pura inspiração? Papel, lápis, caneta. Palavras, palavras, palavras. Letras. Em todo o mundo, são os únicos que conseguem me compreender, nem que seja só por uma folha, nem que seja só para entreter.

Tinha um quarto do tamanho da sua fama. Tinha um quarto do tamanho do vazio que ainda assim sentia. Vazio esse que ele tentava preencher com folhas empilhadas em cima de sua escrivaninha. Aos poucos as folhas ocupavam o espaço em que um dia ele imaginara pertencer a alguém, mas então, percebeu-se que não, não pertencia mais a ninguém.

Era cantor, compositor, escritor. Colocava seus pensamentos mais puros em folhas bagunçadas.  Transmitia por meio do branco do papel todas as suas tristezas, revoltas e momentos de alegrias e o conseguia até mesmo quando não falava de si mesmo. Mas não gostava de ler seus escritos mais de uma vez, não gostava de ouvir suas próprias músicas e nem de ver seus shows gravados em DVDs.

Talentoso, a relação entre ele e ele mesmo era contraditória. Qual é o sentido de me escutar novamente? Todos os mesmos pensamentos aflorados a cada três ou quatro minutos de melodia. Não, não quero voltar para lá! Quero vivenciar outras tristezas, outras revoltas, outras alegrias, outras estórias envoltas de sentimentos de quem as escreve. Quero ouvir tudo que não esteja há tempos em minha mente.

Ele também não gostava de programas de televisão, achava que tudo lá era ensaiado, minimamente coreografado. Nada lhe parecia natural e não gostava de nada que não lhe parecesse natural. Repudiava ver a essência das pessoas escondidas em meio a maquiagens e falsas aparências.

Naturalidade: Uma das coisas pelas quais ele prezava em sua vida.

Simplicidade: Uma coisa que ele prezava em sua vida.

Exatamente por isso que ele queria algo mais. Um amor mais genuíno do que aquele estampado em cartazes, em rostos entusiasmados e em tatuagens com frases de suas músicas. Não é que ele não era amado, só não achava nada em si mesmo para se amar. Não é que ele não amava, é que amava tudo ao mesmo tempo e, assim, tinha a impressão de que na verdade não amava nada.

Às vezes ele vinha até mim e me dizia que nos shows sentia tudo de uma só vez. Que no palco tudo era mais intenso e que ao cantar, milagrosamente, esquecia de todos os seus pensamentos. Tanto, que geralmente esquecia até das letras que um dia colocou no papel em busca de se preencher.

Quem o lembrava das palavras era a plateia. Aquelas milhares de pessoas que pagaram para vê-lo por duas horas. Aquelas pessoas que demonstravam um amor não tão simples, mas que ao mesmo tempo era natural, era genuíno.

Finalmente percebeu algo em si digno de ser amado e chegou à conclusão de que um só amor nunca lhe fora suficiente. Escreveu todas as novas ideias e colocou-as junto a uma nova pilha de folhas.

Tinha o costume de entregar rosas no final de suas apresentações. Renato, tive a certeza naquele momento de que a rosa havia voltado para você.

 

*Texto inspirado no cantor e compositor brasileiro que eu mais admiro, Renato Russo.  Suas músicas sobrevivem a todas as barreiras do tempo e servem de inspiração para milhares de pessoas, de todas as idades. Obrigada Renato por dar-me também grande e ilimitada inspiração.

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