Caixa de contos · Comportamento

Levantar voo

voo

Eu sonhei que estava voando. Mas não era um sonho comum, era algo que parecia ter acontecido de verdade. Eu senti o vento nos meus braços e a forma como eu me movimentava para manter o equilíbrio por entre as árvores.

Eu sonhei que estava voando na floresta e eu desviava de todos os troncos me sentindo livre como nunca havia sentido antes. Uma emoção e tanto já que mesmo no sonho eu tinha certeza de que esse acontecimento era impossível para 99,99% da população mundial. Eu era 0,01%, a exceção.

Mas eu não tinha completo controle do que eu estava fazendo. Eu tive medo de que quando eu parasse, nunca mais teria a chance de voltar lá para cima. Foi por causa desse medo que eu fiquei no ar por trinta ou mais minutos, sem me importar se as pessoas lá embaixo estavam olhando.

Quando me senti exausta de balançar os braços, de manter a velocidade certa para não cair, de me equilibrar em cada curva, eu me deixei descer calmamente. Me surpreendi com a leveza com que eu atingi o chão. Foi tão natural, tão simples, era como se eu tivesse nascido com aquele dom. Era como se desde pequena eu tivesse aquilo dentro de mim, que só precisava ser liberado na hora certa. E na hora certa eu me libertei.

Sentei no chão e fiquei olhando para o topo das árvores por onde eu voava somente segundos antes. Fiquei imaginando quais eram as possibilidades de eu estar louca, imaginando ter chegado no topo enquanto somente estava andando de braços abertos na terra molhada.

Passados cinco minutos, eu fiquei em pé e levantei voo novamente. Foi então que eu percebi que eu era mesmo única, que eu era a prova de que coisas impossíveis podem acontecer, eu era 0,01%.

Quando eu acordei pela manhã, não tentei voar, nem levantei meus braços buscando o equilíbrio novamente, simplesmente sentei na cama, peguei o computador, liguei-o e comecei a escrever. Percebi que eu era o 0,01% ou talvez até 0,000001%. Eu era única e isso me fez sentir mais livre do que nunca porque não importa o que eu faça sempre vou ser diferente de tudo e de todos, nem que seja por uma coisa mínima, nem que seja só por uma vírgula.

Por causa de um sonho, eu percebi quanta coisa eu posso realizar: o impossível, o voo inesperado – não literalmente, claro. Eu percebi que eu tenho um dom natural, surpreendentemente simples: escrever. Os títulos são quando eu levanto voo, parágrafos são meu equilíbrio e a altura que eu atinjo são minhas palavras, ilimitada.

É clichê, mas a verdade é que podemos fazer tudo, até pegar lições de vida de sonhos doidos no meio da noite.

 

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