Amor · Caixa de contos · Comportamento

Olhares apaixonados, short e filme francês

Foto: Pinterest
Foto: Pinterest

Na madrugada fria eu insisto em usar shorts, jaqueta e um par de meias. Talvez não tenha nada mais contraditório, mas, para mim, parece que tudo faz sentido. Já são quase duas horas da manhã e na sala meu pai escuta ‘With or without you’ do U2. Talvez não tenha música mais clichê, mas, para mim, toda essa cena nunca fez tanto sentido.

A TV no quarto está passando um filme francês, daqueles que celebra o amor te fazendo rir e adorar o romantismo de cada dia. Em meio as cenas eu escuto Cole Porter e me vem toda uma lembrança de uma época na qual não vivi. Nostalgia do que nunca aconteceu, tenho muito disso!

Enquanto foco na tela da televisão, Audrey Tatou protagoniza aquele momento em que o personagem do filme, sem saber exatamente o que está acontecendo, olha para a outra pessoa por alguns [longos] segundos. São os segundos em que a outra pessoa não percebe que está sendo olhada. São os primeiros segundos de uma história de amor.

Ao mesmo tempo em que tudo isso é lindo e “wildly romantic” [lembro de uma cena de Breakfast at Tiffany’s], fico imaginando que se é possível para atores fingirem esse momento, não deve ser complicado para pessoas comuns. Mas, aí é que está a magia dos segundos. A pessoa ao seu lado não sabe que está sendo observada, você não está tentando convencê-la de nada, você não está tentando convencer nem a si mesmo. São os primeiros segundos de uma história de amor vinda de um roteiro de filme francês.

As vezes eu gosto de reparar em casais na rua, eles trazem uma doçura que talvez eles mesmos não percebam. Lembro de um dia observar um casal se despedindo em frente a entrada do metrô Anhangabaú. No momento em que a moça se virou, o homem ficou parado observando ela entrar. Não consegui reparar mais na mulher porque havia paralisado no olhar dele. Esse exato olhar de quem talvez saiba – ou talvez ainda vá descobrir – que está se apaixonando.

O homem ficou parado lá por cerca de 30 segundos depois que a mulher foi embora e quando finalmente se virou, ele passou a mão no cabelo e esboçou um sorriso. Eu, parada sozinha na rua, percebi que não preciso ir à Paris para vivenciar casos como esse no dia a dia.

Na TV, Audrey Tatou observa as costas do homem que está com ela, finge não reparar, mas não há como negar o olhar em seu rosto. Nunca vou poder ver esse mesmo olhar em mim mesma, mas recordo-me de analisar a barba falhada de um homem e a forma como sorria por vezes envergonhado. Ele não olhava em meus olhos enquanto contava sua história e eu já não prestava mais atenção, estava focada demais em detalhes dele que não ouvia mais nada. Talvez esse tenha sido os meus segundos, mas talvez venham mais por aí.

O filme termina e na sala meu pai escuta ‘But I still haven’t found what I’m looking’. Talvez não tenha cena mais clichê, mas, para mim, tudo faz absoluto sentido. Talvez eu não tenha encontrado o que eu estou procurando, talvez esteja bem embaixo do meu nariz, talvez não caiba a mim decidir agora, talvez alguma pessoa me encontre, talvez eu ache, perca e volte a buscar novamente; mas nada disso realmente importa agora. Sou só eu, relances de olhares apaixonados, trechos de Cole Porter, shorts e um par de meias. Sou eu no meio da cena da minha vida, em meio à cena que para mim faz todo o sentido. Eu e os segundos do meu próprio filme [francês ou não. E quem se importa? Eu falo português mesmo].

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s