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Um mundo de Alana

 

Foto: LIFE Magazine
Foto: LIFE Magazine

Ela acordou com um sorriso no rosto, arrumou levemente o cabelo e passou as mãos pelo corpo para desamassar a sua roupa por tanto se mexer no meio da noite. Levantou-se e foi contemplar o sol a sua frente. Eram 9 horas da manhã e os raios já batiam forte.

Alana, apesar de tudo que havia passado em sua vida, sentia esperança nesse dia. Ela, que já havia perdido a noção do tempo que passara, tinha a sensação de que era começo de primavera – temporada que sempre fora sua preferida.

Ela se lembrou dos tempos de criança, quando o sol que voltava a aquecer lá pelo meio de setembro a deixava brincar no parque de seu bairro por mais tempo. Sua mãe, que trabalhava até às seis horas da tarde, chegava em casa para preparar o jantar e só a chamava quando o prato já estava a sua espera na mesa.

Agora, aos 30 anos, Alana já não vive mais no mesmo bairro de quando criança há 15 anos. Ela cresceu e viu sua vida mudar e virar de cabeça para baixo de uma hora para outra. A mudança veio em pleno inverno, cerca de dois anos após ela e sua família mudarem de casa.

Enquanto dobrava seu cobertor ralo, ela se lembrava dos novos amigos que fez aos 17 anos e as pessoas que agora ela sabia que não poderia ter se deixado confiar. Lembrou-se de seus primeiros tragos e da vontade inicial que teve de parar. Lembrou-se das festas e dos amigos insistindo e do exato momento em que não quis mais parar. Lembrou-se de largar a escola e ter vergonha de pedir ajuda. Lembrou-se de sair de casa e do olhar desesperado de sua mãe ao vê-la saindo pela porta principal de casa.

O sol continua forte e o termômetro na Praça da Sé mostra 26º C. Alana, apesar de tudo que viveu na sua vida, sente esperança. Tudo que havia mudado desde que mudara de bairro e companhia, foi acompanhado do vento frio de inverno. Todos os seus piores dias foram tentando se esquentar em cima de um papelão já surrado e com seu cobertor ralo. Mas, agora que é primavera novamente, ela sente e tem certeza, assim como o sol que queima a pele, que sua vida irá mudar.

Alana não tem uma janela e nem um teto para se proteger, mas ela vê a paisagem com clareza enquanto uma lágrima isolada desce pelo seu rosto. Ela sabe, sua vida há de mudar!

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