Caixa de contos · Música

Bateria e um baterista: é tudo que ela precisa

Ilustração de Meg White/ Reprodução: Pinterest

Camila vivia em shows de rock de bandas que ela nem ao menos conhecia. Ela ia sozinha porque não gostava de ter que ir embora mais cedo caso seus acompanhantes ficassem cansados e/ou achassem a música sem graça e quisessem ficar do lado de fora somente com uma cerveja na mão – como já tinha acontecido anteriormente.

Ela gostava de ir sozinha para poder apreciar cada nota durante a madrugada que corria depressa. Enquanto no palco os músicos se agitavam fácil, cada um a sua maneira, ela, um pouco abaixo, sentia a energia deles e pulava. Ela pulava e dançava em silêncio sentindo a música pulsar pelo corpo.

Em meio a algumas dezenas de pessoas com suas bebidas na mão e suas fumaças de cigarro no ar, ela, a cada pulo, a cada pulsar da música e a cada banda nova que subia no palco, se encantava mais e mais pela bateria. Seus pés iam para cima e para baixo, mas seu olhar continuava sempre no mesmo ponto.

Seus olhos eram totalmente atraídos pela bateria e seu baterista. Não sabia bem definir o que chamava mais atenção. Era como se ela pudesse se ver sendo o baterista e/ou sendo seu instrumento. As mãos dançando conforme a música, com os olhos fechados sentindo o ritmo e o ápice chegava na batida forte. Era atração instantânea!

Nos intervalos de cada música, enquanto o vocalista dizia algumas palavras, o guitarrista apertava botões no pedal e o baixista ajustava seu instrumento; ela reparava no baterista girando as baquetas com as mãos e agitando as pernas em ansiedade por mais pulsos elétricos dentro de si.

Ela é melhor quando está com ele. Não que ele seja esse alguém específico, mas é que solos de guitarra não vão conquistá-la, mas solos de bateria certamente vão! E ela está com ele. Está feliz indo de show em show, de banda em banda, se apaixonando cada vez mais por um instrumento, pela ideia dele ou platonicamente por quem o toca.

Pergunto a ela porque nunca aprendeu a tocar uma bateria já que é tão fascinada. Camila me disse que o seu fascínio está em ver a magia acontecer pelas mãos dos outros e que com ela não seria a mesma coisa. Era como se beijar na própria mão ou ser beijada na boca pela pessoa que ama.

Certo dia, no final de um show que ela jurou ter sido incrível, Camila subiu no palco já com as luzes apagadas, beijou o baterista, pegou uma baqueta e foi embora. Ela me disse que valeu a pena. Deve ter valido mesmo. A baqueta está em sua casa e o cara ela não o viu mais, já que não tem o costume de ir a um mesmo show mais de uma vez. Mas, com a voz leve e os olhos empolgados, admite: nunca é tarde para fazer algo pela primeira vez (ou pela segunda).

 

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