Caixa de contos · Crônicas

É a vida real? Ou é somente uma fantasia? Eu digo que nada importa!

Foto: Pinterest

Essa é a vida real? Ou é somente uma fantasia? Eu não faço a mínima ideia de qual seja a resposta a esse desaforo que todos chamam de vida. É infame, é destrutivo, é cansativo o acordar todos os dias. Eu não sei responder as perguntas mais simples do que quer que seja que eu vivo. Eu não saberia te responder nem sequer as horas do dia. Não saberia te dizer qual é o dia da semana ou qual foi a última vez que eu dormi em uma cama.

Não sei se algum dia já dormi em uma!

Eu me jogo sim! No abismo dos meus olhos fechados sempre que posso porque esse vazio me tira do buraco. Engraçado, não? Estar na escuridão e encontrar conforto? Não ver nada e me sentir eu de novo? Eu poderia viver assim. Sem sentir fome, sem sentir a dor do frio que sufoca os ossos. Não sentir a cabeça que lateja, os pés que fraquejam e os tiros que não levei, mas que doem dentro de mim.

Eu acordo todos os dias com a mente dormente e olho para o céu. Aquele que todos dizem ser azul mas eu vejo vermelho. Não sei! Não me pergunte! Não tenho certeza. Podem ser os raios de sol, posso eu ser doente da cabeça. Pode ser o reflexo dos meus olhos na cor que deveria ser intensa.

Na pobreza e na incerteza de um prato ou de um pedaço de alumínio arredondado, eu ajeito todos os dias o meu lençol embolorado. Foi a chuva de uns dias atrás e o frio dos dias seguintes que não o deixaram secar. Eu cheiro à mofo, mas continuo.

Eu continuo porque não tiro minha própria vida e não ousaria tirar a de mais ninguém. Talvez fosse até melhor não ver mais o tempo passar, mas não. Eu sou só um homem pobre. Um homem que não se ajuda, mas que também não se coloca para baixo.

Me levanto para juntar as sobras do que as pessoas que vêm o céu azul deixam para que eu possa tomar. As sacolas cor de meu conforto são as únicas coisas que quando remexo podem me dar uma vez por dia um estômago cheio – ou duas, se alguém deixou o lixo de uma festa na porta da sala de estar.

Meu carro e eu passeamos pela cidade. Chamo de carro porque não gosto de subestimar minhas coisas. Ele carrega comigo – ou sou eu que carrego ele? – todas as coisas que para os outros não prestam, são velhas, são sujas ou simplesmente não são nada a ponto de fazer diferença. A ponto de realmente importar.

Eu pego todas as coisas que para mim fazem sentido. Todas as coisas que podem me trazer algo digno de refeição e coloco no carro. Carrego e sou carregado. Passeio, gasto o sapato. Passeio e ando descalço. A sujeira do chão não me incomoda. Não faz diferença. Acho que na verdade não importa.

No caminho de volta para casa, para o meu canto de conforto de quando fecho os olhos, escutei uma música. Será que essa é a vida real? Ou é somente uma fantasia? Não sei. Mas fiquei com algumas notas na cabeça e umas palavras que me chamavam.

Deitei. Deitei e adormeci. Adormeci no conforto da escuridão dos meus olhos fechados. Meus olhos que, ironicamente, ouvi dizer, nasceram azul. Mas isso não importa.

Nada realmente importa.

*Inspirado em um homem que vi catando lixo na rua enquanto escutava “Bohemian Rhapsody” da banda Queen.

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