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O tempo

red
Foto: Pinterest

Era noite e eu estava mais uma vez no posto de sempre. Firmado em frente à porta do hotel, tentando alcançar um pouco da brisa do vento que batia lá fora pela pequena fresta que havia na janela. Era meu segundo dia seguido apesar de hoje ser minha folga.

Os meus 28 anos não me ensinaram muitas coisas. Não me ensinaram, por exemplo, recusar perder o dia em casa por problemas de escala de um supervisor sem atenção. Porém, as poucas que aprendi foram as mais importantes para carregar na vida. Carregar enquanto carrego essa arma que é ainda mais firmada pelo cinto da calça.

Não sou dos caras mais seguros de si. Muito pelo contrário. Chega ser ironia que o meu trabalho seja exatamente com uma arma carregada e que eu vejo no espelho um cara todo engravatado.

Não sou eu. É o final de uma história completa de perdas e frustrações. Perdas de pessoas que me importava, meu melhor amigo que foi baleado e agora eu ando com uma arma carregada. Minhas perdas me tiraram a minha ansiedade por rimar.

E poderia ter sido eu. Poderia ter ido com um simples piscar de olhos. Teria eu passado em uma rua escura em momento inoportuno ou em uma rua com o sol queimando acima de minha cabeça. Alguns minutos e poderia ter sido eu a ser queimado.

Perdi a fala mais de cinquenta vezes e nessa brincadeira eu pego um pouco da brisa que sinto vir da fresta aberta da janela.

Já são mais de oito horas da noite e eu aqui sozinho em um prédio comercial sem ninguém. Cuidando de uma portaria que ninguém entra. Após as seis, as poucas pessoas que aparecem são as que saem e não as que entram. Muitas vão na ânsia de chegar em casa e não vêm o homem engravatado ao lado delas. E elas não param por um segundo para ver quem são as pessoas ao redor delas. Por que parariam? E o que importa? Nada importa quando se está a caminho de casa.

Encaminho-me até a porta e saio para ver as estrelas. Vejo em meio a nuvens carregadas uma estrela solitária brilhando fortemente. Vejo um monte de escuridão e um pouco branco iluminado, que quase cega, no meio do céu. Talvez aquele ponto seja eu. Estaria a estrela prestes a apagar também? Estaria ela prestes a enxergar outros milhões de pontos brilhando ao lado dela?

Volto para o meu posto ainda pensando em como não me sinto eu mesmo nas noites em que passo aqui solitário. Escuto trovões do lado de fora e posso imaginar a estrela perdendo o brilho lentamente enquanto a nuvem negra toma conta dela. Posso me imaginar sendo tomado pela luz negra que nem minha arma pode me resguardar.

Lá fora começa uma tempestade e o interfone toca. É a dona de um dos escritórios que disse que esqueceu a rede de internet ligada e queria que eu fosse lá desligar para ela. Ela sempre deixava uma chave comigo porque tinha medo até de esquecer a máquina de café ligada e ter que voltar para desligar.

Fui até a sala, desliguei, tranquei e desci. Desci e ao olhar para a porta avisto um ponto vermelho passeando pelas ruas em ritmo rápido. Uma moça, com o guarda-chuva pingando, chegou correndo em minha frente. Eu abri a porta e segurei assim até que ela entrasse.

A moça tinha os olhos mais pretos que eu havia visto, mesmo clareados pelas gotas de chuva que acabara de cair de seus cílios para os olhos. Ela sorrindo e passando a mão pelos cabelos molhados, perguntou meu nome e me disse obrigada. O tempo lá fora continuou passando e aquela mulher em minha frente ainda desorientada, começou a contar como a água caiu forte fazendo-a não conseguir aguentar até chegar em casa, a somente três quarteirões dali.

E eu soube, naquele instante – com a voz dela falando ao fundo – que mesmo com a tempestade caindo lá fora, que a chuva para aquele ponto brilhante havia cessado.

*texto inspirado na música “Timing is everything”, cantada por Garrett Hedlund no filme “Country Strong”.

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